quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Entrevista com Tony Bellotto

- Como foi o processo de escolha do tema e o processo de criação de "No Buraco"? (Regiane Jodas, São Paulo/SP)
[Tony] No Buraco foi acontecendo aos poucos na minha cabeça. Há tempos já tinha vontade de escrever alguma coisa sobre minha vivência no rock. Desde 2005 vinha escrevendo contos sobre o tema. Quando decidi fazer o romance, na virada de 2008 pra 2009, resolvi incorporar os contos ao romance, como as lembranças do personagem Teo Zanquis, o guitarrista que está com a cara enfiada na areia.

- No livro você descreve a experiência "sexo, drogas e rock 'n' roll" de um músico nos anos 80. Você se arrepende de alguma coisa dessa época ou faria tudo de novo? Acha que esse lema ainda faz sentido hoje? (Marcia Beltrame, Curitiba/PR)
[Tony] Não me arrependo de nada, porque o arrependimento é um sentimento inútil e desagradável. Sexo, drogas e rock não são propriamente um lema, mas um exemplo de que a vida pode ser vivida de formas alternativas, rebeldes, incosequentes e prazerosas. Faz sentido sempre.

- Foi intencional não focar mais na atividade do guitarrista em si, como relatar a emoção de estar num palco, o ato de compor, as inspirações, gravações de discos, etc?
[Tony] Essas coisas não têm muita graça. Emoções positivas, sentimentos edificantes. O que constrói a verdadeira literatura é o fracasso, o sangue e o vazio.

- "No Buraco" mostra a face de um músico frustrado por não ter dado sequência a seu sucesso. Você, porém, com 30 anos de estrada, continua com muitos sucessos. O personagem do livro é inspirado numa personalidade em que você tinha medo de se tornar? (Marcos Philipe Dias, Timóteo/MG)
[Tony] O fato de eu ser bem sucedido não quer dizer que não tenha momentos de fracasso, frustração e desilusão. Estes sentimentos me parecem mais reveladores da verdadeira natureza humana do que a euforia ilusória do sucesso, da autoconfiança e da ilusão.

- De onde veio a inspiração para a trama do Cannoli? Tanto a ideia em si que lembra sua origem policial quanto a ideia de tocar no tema do cibercrime.
[Tony] Em determinado momento da criação do romance, senti necessidade de um acontecimento eletrizante para dar uma quebrada no ritmo das lembranças. Algo que acontecesse no presente e tivesse força para conduzir a narrativa dali por diante. O cibercrime entra como um exemplo de acontecimentos modernos que não fazem mais parte da existência do Teo, um anacrônico que percebe o mundo se afastando dele aos poucos.

- O ato de escrever por si só já é, de certa maneira, um ato de se expor, mas num livro escrito em primeira pessoa e que você mesmo declarou ser um tanto quanto autobiográfico, não te deixou com mais receio dessa exposição?
[Tony] É paradoxal, pois no fundo o que o artista deseja mesmo é se expor. É de suas entranhas que o artista retira a matéria prima de suas criações. Como alguém que retira o próprio intestino e o usa como uma corda para se enforcar. Só para chamar a atenção...

- Os Titãs já chegaram a comentar sobre o novo livro? O que acharam?
[Tony] Nem um comentário até agora...

- E como está sendo a recepção de maneira geral?
[Tony] Boa. Críticas positivas e pessoas me dizendo que gostaram.

- Nos livros do Bellini você faz a narrativa em primeira pessoa. Situação que não se repete em Os Insones, mas volta a acontecer em No Buraco. O que determina essa escolha? Seria porque o Bellini e o Teo Zanquis têm mais da personalidade do Tony Bellotto? (Fernanda Pinho, Belo Horizonte/MG)
[Tony] Olha, essa questão do narrador é sempre fundamental no início da escrita de um romance ou de um conto. É preciso optar pela espécie de narrativa, e essa é só a primeira das inúmeras decisãoes que um escritor tem de tomar ao longo do processo de criação. A narrativa em primeira pessoa aprofunda mais o personagem, nos faz entrar na cabeça dele, SER o personagem de alguma forma. A narrativa na terceira pessoa permite uma visão mais ampla dos personagens, permitindo que o narrador perceba coisas que os personagens não percebem. Tudo depende do tipo de narrativa que se está buscando.

- Por falar no Bellini, estamos com saudades. Podemos esperar por um reencontro com ele? (Fernanda Pinho, Belo Horizonte/MG)
[Tony] Acho que sim, embora não possa garantir. Não depende de mim, e sim do Bellini...

- Você pretende escrever outros livros que girem em torno do rock'n'roll ou que tenha a música com um dos principais focos?
[Tony] Gostaria, mas por enquanto não me ocorre nenhuma ideia.

- O que acha de adolescentes e jovens se interessarem por seus livros, atraídos pela música que você faz? Tem vontade de escrever algo á esse público? (Marcos Philipe Dias, Timóteo/MG)
[Tony] Acho legal, mas nunca penso no público, ou no leitor, na hora de escrever. Tento escrever um romance que EU gostaria de ler.

- Você tem um site onde publica algumas crônicas. Porém, nunca publicou algo do gênero. Tem vontade de reunir várias dessas crônicas num livro? (Marcos Philipe Dias, Timóteo/MG)
[Tony] Pode ser. Nunca pensei seriamente sobre isso.

- Você já teve dois livros que foram adaptados para o cinema, pensa em fazer o mesmo com o "No Buraco"? (Marcia Beltrame, Curitiba/PR)
[Tony] Depende de alguém querer transpor o livro para o cinema. Eu sempre acho um bom
negócio, pois promove o livro, e dá uma onda ver em carne e osso os personagens que você
criou.

- Uma curiosidade a respeito do seu processo criativo. Como vem a escolha dos nomes de seus personagens? Já aconteceu de mudar o nome de um personagem no meio do livro? O quanto você acha que a escolha do nome é importante para o futuro daquele personagem? (Fernanda Pinho, Belo Horizonte/MG)
[Tony] A escolha dos nomes é meio aleatória. Alguns já vem prontos, outros são mudados ao longo da construção da história. Às vezes dou um nome de trabalho, que sei que terá de ser mudado no futuro. Mas é um processo meio louco. Meio Chico Xavier, se é que vocês me entendem...

- Quando você começa a escrever um romance, já tem o final definido ou tem apenas uma ideia inicial que vai se modificando durante o processo de criação? (Laís Bastos, Curitiba/PR)
[Tony] Tenho uma ideia geral, como um rascunhão da história. Mas há muitas lacunas e buracos negros que serão desvendados ao longo do processo de criação. E muita coisa muda.

- Há autores que costumam utilizar fatos que ocorrem no cotidiano e transformá-los em ficção nos seus livros. Você usa fatos que ocorrem com você em shows, gravações de seu programa de TV e até mesmo dos momentos com sua família? Como funciona essa transformação da realidade para ficção? (Marcos Philipe Dias, Timóteo/MG)
[Tony] É inevitável que você use acontecimentos da tua vida, ou de outras vidas, na criação de um texto de ficção. Mas a realidade é sempre distorcida e reprocessada.

- Você se sente realizado como escritor? Já está pensando em um próximo projeto? (Marcia Beltrame, Curitiba/PR)
[Tony] Realizado sim. Mas não o suficiente para parar de escrever. Tenho alguns projetos em mente.

- Você tem planos de um dia se dedicar somente a carreira de escritor? (Regiane Jodas, São Paulo/SP)
[Tony] Quando não aguentar mais tocar guitarra em cima do palco, talvez.

- Qual a sua opinião sobre eventos literários como a Bienal do Livro, atualmente criticada por muitos? (Regiane Jodas, São Paulo/SP)
[Tony] São sempre positivos, pois estimulam a leitura.


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